Vivemos em um mundo onde, com poucos cliques, um adolescente pode acessar conteúdos que impactam profundamente sua forma de ver o mundo — entre eles, a pornografia. Embora o tema ainda seja um grande tabu nas famílias e na sociedade, ignorar esse "elefante na sala" pode custar caro.
Uma pesquisa recente investigou justamente isso: como o acesso à pornografia se relaciona com casos de abuso sexual cometidos por adolescentes do sexo masculino. O que se descobriu vai muito além do que imaginamos.
🔄 Quando vítima e autor são a mesma pessoa
Um dos aspectos mais impactantes do estudo é o que os especialistas chamam de polivitimização — ou seja, adolescentes que foram vítimas de diversas formas de violência ao longo da vida. Isso inclui agressões físicas, negligência emocional, abandono, abuso sexual, bullying, e até ameaças dentro da própria casa.
O mais preocupante é que muitos desses adolescentes, antes vítimas, acabam se tornando autores de violência — especialmente contra crianças mais novas, muitas vezes dentro do próprio ambiente familiar. Essas ofensas variam em gravidade, desde toques forçados e beijos sem consentimento até casos de estupro, sempre marcadas por uma relação de poder e hierarquia.
🧩 Pornografia como peça de um quebra-cabeça complexo
O estudo mostrou que a pornografia não aparece isoladamente nesses casos. Ela se encaixa em uma trama muito maior, onde a violência, o sofrimento psicológico e a falta de apoio formam um verdadeiro quebra-cabeça emocional.
Esses adolescentes, sem diálogo com a família, afastados da escola e sem aderência às intervenções sociais, acabam buscando conexões no mundo virtual. E aí encontram a pornografia, muitas vezes como uma tentativa de enfrentar a solidão ou lidar com suas dores internas.
Mas esse tipo de “fuga” pode se transformar em um uso problemático, criando um ciclo: quanto mais sozinhos se sentem, mais consomem pornografia — e quanto mais consomem, mais se isolam.
👨👩👧👦 Quando os adultos não sabem como agir
Uma descoberta importante é que, na maioria dos casos, os adolescentes têm acesso irrestrito à pornografia — pelo próprio celular, pelo computador de casa ou até pelo telefone da mãe. E, o mais alarmante: os pais sabem que eles acessam, mas não conseguem ou não sabem como conversar sobre isso.
Falar sobre pornografia ainda é muito difícil para muitas famílias. Seja por vergonha, medo ou falta de informação, esse silêncio contribui para que o tema continue sendo um mistério para os adolescentes — que então aprendem sobre sexualidade através de conteúdos distorcidos, violentos e muitas vezes desumanos.
⚠️ Pornografia não é o único vilão, mas é uma peça importante
A pesquisa não diz que pornografia causa diretamente o abuso sexual, mas mostra que ela pode aumentar o risco quando está inserida em contextos de vulnerabilidade, abandono, violência e sofrimento psíquico.
Ou seja: não é o conteúdo por si só, mas o conjunto de fatores que, combinados, contribuem para comportamentos preocupantes.
📣 Precisamos falar sobre isso. Urgente.
Diante desses achados, o estudo defende a criação de políticas públicas que incentivem a educação sexual desde os adultos — pais, avós, professores — para que eles possam se sentir preparados para conversar com crianças e adolescentes de forma aberta, acolhedora e sem tabus.
Além disso, é urgente discutir a regulamentação das plataformas digitais, pois hoje crianças e adolescentes acessam pornografia com extrema facilidade, muitas vezes sem qualquer tipo de filtro ou controle.
Também é necessário olhar com mais atenção para o desenvolvimento psicossexual dos jovens, compreendendo como suas vivências, traumas e experiências moldam suas relações afetivas e sexuais.
🔍 Tornando visível o invisível
Ao tratar a pornografia como uma peça invisível, mas fundamental, na vida desses adolescentes, o estudo ajuda a trazer à tona um tema difícil, mas que precisa ser enfrentado. Afinal, não podemos modificar o que não conseguimos ver — ou o que preferimos ignorar.
O problema não está apenas na internet, nos vídeos ou nos celulares. Ele também está na ausência de diálogo, na solidão de muitos jovens, e na falta de estrutura para lidar com a dor e o trauma.
Reconhecer esse cenário é o primeiro passo para transformá-lo.
Se você é pai, mãe, cuidador ou educador, lembre-se: o silêncio também educa — e, muitas vezes, educa para o medo, para o segredo e para a confusão. A boa notícia é que sempre há tempo para começar uma conversa. E ela pode mudar tudo.
Fonte: Spinóla BA. O elefante na casa: invisibilidade da pornografia no contexto do abuso sexual cometido por adolescentes [dissertação]. Brasília: Universidade de Brasília; 2023.
Me. Ana Larissa Perissini - Psicóloga e Sexóloga CRP 06/71000